Resenha do livro Objetos Cortantes

Estive um pouco ausente nos últimos dias, e prometi que assim que voltasse faria uma resenha do livro que eu terminei de ler. Promessa é dívida, então aí vai. Sem spoilers. podem ficar tranquilos.

Objetos Cortantes é o livro de estreia de Gillian Flyn, autora do best-seller Garota Exemplar, que chegou aos cinemas em 2014 com Ben Affleck e Rosamund Pike na pele dos personagens principais. O título faz jus ao que se espera de um primeiro livro – a trama é interessante, apesar de encontrarmos alguns furos na narrativa. Demorei três dias para ler, mas foi porque estava sem tempo. Vamos aos fatos:

Apenas mais uma família disfuncional

A heroína (se é que podemos chamá-la assim) da história é Camille Preaker, uma jornalista de 20 e tantos anos que vive em Chicago e trabalha em um jornal de pouca expressão. Ela mesma é uma profissional medíocre, apesar de ter um bom potencial. É pensando nisso que seu editor a comissiona para cobrir uma série de assassinatos bizarros em Wind Gap, Missouri, sua cidade natal. Enquanto o chefe acredita que a ligação com o ambiente facilita o trabalho, Camille reluta bastante em aceitar a oportunidade por não se relacionar bem com a famílila.

O que só descobrimos depois de umas belas cinquenta páginas, é que a nossa protagonista é uma cutter – em bom português, alguém que pratica a auto-mutilação. Recém-saída de um hospital psiquiátrico, ela ainda está em recuperação, mas tem o corpo inteiro coberto por cicatrizes. Ao contrário da maioria dos casos, ela não faz riscos aleatórios, mas fura a pele para escrever palavras.  Antes mesmo dessa revelação, percebemos que ela tem o hábito de relacionar os sentimentos a palavras que pulsam em seu corpo. Sensível, mas extremamente problemática.

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O mistério? Duas menininhas mal comportadas foram assassinadas brutalmente, e tiveram todos os seus dentes arrancados. Sem registros de violência sexual, o crime põe a cidade pequena em polvorosa, e é durante a investigação de Camille que vamos desvendando os seus segredos mais obscuros. O que parecia um típico vilarejo de interior mostra suas verdadeiras cores conforme vamos conhecendo a natureza dos seus habitantes: pessoas frias, más, cujo único passatempo é falar mal dos outros e construir a própria reputação com base na humilhação alheia.

Não existe absolutamente nenhum personagem solar na história. Todos são problemáticos e com vários traços de caráter perturbadores. A história é pesada e em vários momentos da leitura eu fiquei com uma sensação ruim, uma angústia muito forte. Não pela violência ou pela sexualidade precoce (as menininhas de 13 anos do livro fazem coisas que deixariam muita mulher safada de cabelo em pé), mas pela constante tensão psicológica. Você fica com pena, com raiva, assustado, mas ao mesmo tempo entende de onde esses comportamentos se originam, e é tentado a justificar as atitudes mais odiosas da história. Entre as piores, estão as praticadas pela mãe de Camille, Adora, e a sua meia-irmã, Amma (que é basicamente uma mistura da Sandy com a Noiva do Chucky).

Eu gostei bastante da construção dos personagens e da narrativa, mas me decepcionei um pouco com o final. O livro quebra o ritmo muito bruscamente para resolver o mistério nos dois capítulos finais, apelando para uma reviravolta que parece meio apressada. De qualquer forma, não foi nada que invalide a leitura.

O Veredito: Objetos Cortantes é bem mais pesado do que Garota Exemplar. O ritmo é menos acelerado, mas ainda assim a tensão psicológica e a loucura trazem um tom bem amargo para a história. Recomendo o livro, mas com algumas ressalvas para pessoas sensíveis demais. A frase mais marcante? Uma criança criada com veneno considera dor um consolo.

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