Livro é uma Câmera Pinhole

Com certeza já vimos livros que se transformam em outras coisas (na pior das hipóteses, em maquetes infantis). A artista e designer Kelli Anderson criou um tipo diferente de livro interativo: um caderno que é capaz de se transformar em uma câmera pinhole completamente funcional.

O projeto da designer se chama This Book is a Camera, e evidencia o quanto a sequência certa de cortes e dobraduras pode transformar um simples pedaço de papel em uma câmera de verdade. De acordo com o post que ela publicou em seu blog discutindo o projeto, o objetivo era fazer uma máquina fotográfica a partir de um livro educacional, ao estilo pop-up. O resultado é uma edição que explica e demonstra na prática como uma estrutura simplória como uma dobradura pode trabalhar as propriedades intrínsecas da luz a ponto de produzir uma fotografia.

This-Book-Is-A-Camera-2-968x615

O projeto faz uso do conceito da câmera escura (pinhole), que foi desenvolvido nos anos 1800. A câmera escura é o tipo mais simples de lente, e funciona explorando a tendência da luz de viajar sempre em uma linha reta. Provavelmente vocês já brincaram com isso em algum momento da infância, fazendo um furinho na lata do Nescau e tentando revelar a imagem – confesso que no meu caso não deu muito certo, mas enfim.

O livro não precisa ser montado e já vem com uma explicação do funcionamento, assim como instruções detalhadas para uso e também para revelar as fotos. O legal é que ele já vem com papel fotográfico!

This-Book-Is-A-Camera-3

Quer mais? A artista liberou o design e template para download pela licença Creative Commons, em função do seu potencial para experimentos. O template pode ser baixado direto no blog dela. Outro plano é postar as fotos no instagram utilizando a hashtag #thisbookisacamera. Enquanto isso, deixo com vocês o vídeo desse brinquedinho super legal:

Via PSFK

Continue Reading

Resenha do livro Objetos Cortantes

Estive um pouco ausente nos últimos dias, e prometi que assim que voltasse faria uma resenha do livro que eu terminei de ler. Promessa é dívida, então aí vai. Sem spoilers. podem ficar tranquilos.

Objetos Cortantes é o livro de estreia de Gillian Flyn, autora do best-seller Garota Exemplar, que chegou aos cinemas em 2014 com Ben Affleck e Rosamund Pike na pele dos personagens principais. O título faz jus ao que se espera de um primeiro livro – a trama é interessante, apesar de encontrarmos alguns furos na narrativa. Demorei três dias para ler, mas foi porque estava sem tempo. Vamos aos fatos:

Apenas mais uma família disfuncional

A heroína (se é que podemos chamá-la assim) da história é Camille Preaker, uma jornalista de 20 e tantos anos que vive em Chicago e trabalha em um jornal de pouca expressão. Ela mesma é uma profissional medíocre, apesar de ter um bom potencial. É pensando nisso que seu editor a comissiona para cobrir uma série de assassinatos bizarros em Wind Gap, Missouri, sua cidade natal. Enquanto o chefe acredita que a ligação com o ambiente facilita o trabalho, Camille reluta bastante em aceitar a oportunidade por não se relacionar bem com a famílila.

O que só descobrimos depois de umas belas cinquenta páginas, é que a nossa protagonista é uma cutter – em bom português, alguém que pratica a auto-mutilação. Recém-saída de um hospital psiquiátrico, ela ainda está em recuperação, mas tem o corpo inteiro coberto por cicatrizes. Ao contrário da maioria dos casos, ela não faz riscos aleatórios, mas fura a pele para escrever palavras.  Antes mesmo dessa revelação, percebemos que ela tem o hábito de relacionar os sentimentos a palavras que pulsam em seu corpo. Sensível, mas extremamente problemática.

sharp_objects

O mistério? Duas menininhas mal comportadas foram assassinadas brutalmente, e tiveram todos os seus dentes arrancados. Sem registros de violência sexual, o crime põe a cidade pequena em polvorosa, e é durante a investigação de Camille que vamos desvendando os seus segredos mais obscuros. O que parecia um típico vilarejo de interior mostra suas verdadeiras cores conforme vamos conhecendo a natureza dos seus habitantes: pessoas frias, más, cujo único passatempo é falar mal dos outros e construir a própria reputação com base na humilhação alheia.

Não existe absolutamente nenhum personagem solar na história. Todos são problemáticos e com vários traços de caráter perturbadores. A história é pesada e em vários momentos da leitura eu fiquei com uma sensação ruim, uma angústia muito forte. Não pela violência ou pela sexualidade precoce (as menininhas de 13 anos do livro fazem coisas que deixariam muita mulher safada de cabelo em pé), mas pela constante tensão psicológica. Você fica com pena, com raiva, assustado, mas ao mesmo tempo entende de onde esses comportamentos se originam, e é tentado a justificar as atitudes mais odiosas da história. Entre as piores, estão as praticadas pela mãe de Camille, Adora, e a sua meia-irmã, Amma (que é basicamente uma mistura da Sandy com a Noiva do Chucky).

Eu gostei bastante da construção dos personagens e da narrativa, mas me decepcionei um pouco com o final. O livro quebra o ritmo muito bruscamente para resolver o mistério nos dois capítulos finais, apelando para uma reviravolta que parece meio apressada. De qualquer forma, não foi nada que invalide a leitura.

O Veredito: Objetos Cortantes é bem mais pesado do que Garota Exemplar. O ritmo é menos acelerado, mas ainda assim a tensão psicológica e a loucura trazem um tom bem amargo para a história. Recomendo o livro, mas com algumas ressalvas para pessoas sensíveis demais. A frase mais marcante? Uma criança criada com veneno considera dor um consolo.

Continue Reading

Homem encontra mulher: a guerra dos sexos em versão minimalista

A designer chinesa Yang Liu – que já havia feito trabalhos explorando a estética minimalista em infográficos de bonequinhos de palito (ou pictogramas, se querem soar acadêmicos)  – lançou o livro Man Meets Woman, ou Homem encontra Mulher, em tradução livre. De forma simples, o livro compara as diferenças entre homens e mulheres explorando os pictogramas e o design gráfico. Digamos que é uma versão ilustrada de Homens são de Marte, e as Mulheres são de Vênus. Bem divertido.

As comparações são extremamente engraçadas porque são verdadeiras, um pouquinho ofensivas também por serem verdadeiras, mas acima de tudo trágicas porque,  como todo esterótipo, são generalistas e sufocantes – e ainda assim fazem parte do imaginário coletivo. Basta ver que, salvo poucas alterações, tudo o que está escrito nesse livrinho poderia constar em uma tirinha de jornal dos anos 70. Tenso.

manmeetswoman_yangliu8manmeetswoman_yangliu7

manmeetswoman_yangliu2

manmeetswoman_yangliu0

O livro só podia ser da Taschen e, embora não esteja disponível no Brasil, custa apenas 11 dólares na Amazon (lembrando que livros não são taxados pela Receita Federal). Dá uma olhadinha lá no site.

Esse post veio do Brain Pickings.

Continue Reading

Direto da minha estante – Um dia

Tenho uma amiga com quem sempre troco livros, e quando ela me emprestou “Um dia”, achei que fosse apenas mais uma comédia romântica “Guy-meets-girl”. Sabe como é, casal se apaixona, algum plot point os separa na metade da história até que fiquem juntos no final. Não é o tipo de literatura da qual eu me gabaria em uma mesa de intelectuais, mas nem por isso deixo de gostar.

A narrativa é, sim, bem previsível em sua maior parte, mas apesar disso guarda umas boas surpresas no final. A protagonista, Emma Morley, cita clássicos da literatura inglesa praticamente o tempo todo, o que me fez gostar dela de cara. E como a proposta do livro é acompanhar a amizade mal resolvida do quase casal Emma e Dexter, cada capítulo narra como está a vida deles no aniversário do dia em que se conheceram. A primeira parte começa com uma citação do Dickens (Grandes Esperanças – AMO!).

menor

Recomendo o livro, e quem se interessar pode encontrar ele aqui. Por último, também vale pensar um pouquinho sobre a citação aí de cima – reflexões como essa sempre me dão um certo assombro ao ver o quanto não temos controle de nada na vida.

Continue Reading