Resenha do Livro Lugares Escuros

Como vocês sabem, tirei alguns dias de férias, e prometi que traria resenhas dos livros que eu li. Mantenho a minha palavra e vou começar com o único livro da Gillian Flynn que eu ainda não tinha lido: Lugares Escuros. Vou usar uma situação que ocorreu na Livraria Cultura para explicar porque gosto tanto dessa autora: pedi a um dos vendedores que me indicasse algum livro policial em um estilo parecido com o dela. Sabe qual foi a resposta? “Ah, semelhante à Gillian Flynn é difícil de encontrar. É mais fácil se você me disser outros autores que gosta”.

Vamos à resenha

Depois de três livros lidos, já percebi que é do estilo da autora ambientar as tramas no meio-oeste americano, tipo Kansas e Missouri. Dessa vez a nossa ~heróina~ é a Libby Day, única sobrevivente de um massacre que matou sua mãe e as duas irmãs na fazenda da família. O irmão mais velho, Ben Day, foi condenado pelo assassinato da família em um susposto ritual satânico. Tudo parece bem definitivo, uma vez que no início da narrativa Ben já está na cadeia faz 28 anos cumprindo pena pelo crime graças ao depoimento da própria Libby, que em juízo testemunhou contra o irmão (detalhe que ela tinha apenas sete anos).

O chamado à aventura se dá quando a Libby – que desde a época do crime vive de doações e fundos de caridade – percebe que não tem mais dinheiro. Incapaz de trabalhar, ela recebe uma proposta tentadora do Kill Club, que é basicamente a coisa mais bizarra que eu já vi na vida. Trata-se de um clubinho de pessoas jogando detetive com histórias reais, fãs de crimes famosos que se reúnem para tentar desvendar casos controversos. Alguns dos membros do clube se dedicam a estudar o massacre da família Day, e Libby percebe que pode ganhar dinheiro compartilhando detalhes do ocorrido com toda essa galera.  Só tem um detalhe: 100% do clube acredita que Ben Day foi condenado injustamente.  Libby, é claro, fica furiosa, mas diante da oportunidade de ganhar o dinheiro (motivo super nobre) se vê obrigada a rever o caso, e questionar as suas crenças com relação ao papel do irmão.

A partir daí, a narrativa intercala os pontos de vista de três personagens: Ben e Patty Day (a mãe da família), no dia do crime, e Libby Day, nos dias atuais. É nesse ponto que a história toma corpo e fica interessante, pois somos confrontados com os dilemas de uma família super humilde, uma mãe praticamente solteira que precisa cuidar de quatro crianças sem poder contar com o marido, um oportunista que só aparece para pedir dinheiro. Apesar dessa realidade não ser nada original, a cada capítulo vamos vendo uma série de pequenos problemas se avolumando e criando um cenário tenso, anunciando uma catástrofe. Essa é uma das características que eu mais gosto no thriller psicólogico: a tensão que é criada com fatos ordinários, e acaba deixando aquela sensação ruim conforme vamos virando as páginas.

Aniquilação

Além do relato da Patty Day, conhecemos a realidade do próprio Ben, que é um personagem interessante e controverso. Sentimos pena do garoto de 15 anos que é rejeitado no colégio por ser pobre, não consegue se encaixar em ambiente algum e ainda precisa conviver com três pirralhas em casa no auge da adolescência.  Por outro lado, o guri tem uma violência dentro de si e uma exímia capacidade de fazer uma besteira atrás da outra (e qual adolescente não é assim?).

Tudo isso, naturalmente, leva Ben a se envolver com drogas e também a arrumar uma namorada completamente pirada (e uma das personagens mais fortes da história), a Diondra. É ela quem vai introduzir o Ben a um bando de adolescentes ~rebeldes e satanistas~. Aliás, essa história do satanismo é um dos pontos mais ricos do livro: para mim, eles são um bando de piás chapados ouvindo heavy metal e brincando de jogo do copo. Junte a isso o terror que se espalhou nos anos 80 com relação a seitas satânicas, e voilá. Temos a receita para a perdição. Por outro lado, uma amiga leu o livro e realmente se apavorou o tema. As duas opiniões são válidas, e o livro abre brecha para múltiplas interpretações. Além disso, vários questionamentos surgem: ok, os piás estavam brincando com fogo. Saíram queimados? O massacre foi consequência de um ritual satânico, como mais tarde uma das personagens sugere? Cabe ao leitor julgar.

Ao longo de sua busca, Libby confronta novos fatos sobre o crime e, finalmente, acaba topando com o assassino. Mas isso é consequência da história. O mais legal, para mim, são os debates que ela levanta: até que ponto se pode levar em conta o testemunho de uma criança em uma investigação tão séria? Até que ponto a polícia e os assistentes sociais colocam as palavras que querem ouvir na boca das testemunhas? Como, às vezes, pequenas crianças acendem um fósforo capaz de tocar fogo em uma floresta inteira? Se eu pudesse explicar o livro em uma analogia, diria que são personagens abrindo a Caixa de Pandora, todos ao mesmo tempo. O resultado, é claro, uma tragédia.

O Veredito

 Super recomendo a leitura, até porque acabei com o livro em dois dias. A história é pesada, mas os capítulos seguem uma boa cadência e o leitor se sente cada vez mais sugado dentro da narrativa. Apesar disso, ele é um pouco mais leve que Garota Exemplar e Objetos Cortantes. Frase mais marcante: Eu tenho a maldade dentro de mim, tão real quanto um órgão.

Quero ouvir a opinião de vocês! Se alguém aí já leu, que tal publicar as suas ideias aí nos comentários? Lembrando que, para quem gosta de Gillian Flynn, também fiz uma resenha de Objetos Cortantes há um tempo atrás.

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Resenha Livro Lobo Mau

Ok, em primeiro lugar: tomei vergonha na cara e resolvi publicar uma resenha, porque faz séculos que não escrevo nada relacionado à literatura aqui. Terminei esse livro nas férias de Julho, e estou até agora me enrolando para escrever esse post – e, consequentemente, travada em quaisquer outras resenhas porque se eu pular um livro vou acabar esquecendo de comentar sobre ele.

Aviso aos navegantes: apesar do título, Lobo Mau não tem nada a ver com as vertentes 50 shades of grey que andam por aí.  Importante explicar, porque em tempos de soft porn, é provável que alguém pense que estou falando de um predador sexual a la Christian Grey. E embora o livro fale de predadores, não são do tipo que vão fazer as mocinhas suspirarem. Tive contato com esse livro na estante da Cultura, e namorei ele por alguns meses até comprar. Como vocês sabem, eu gosto de ler suspense, e estou sempre procurando novos autores que me tirem da zona Harlan Coben de conforto.

Lobo Mau é escrito por Nele Neuhaus, uma autora de policiais e livros juvenis que estourou na Alemanha. Na capa do livro fala que é o #1 de vendas no país de origem, o que despertou minha atenção.  Descobri que essa autora – assim como Agatha Christie e vários outros que escrevem suspense – também trabalha uma série de livros com os mesmos detetives. Nesse caso, falamos de Pia Kirchoff e Oliver Bodenstein, assignados para investigar uma série de crimes sexuais envolvendo crianças. Segue a sinopse oficial:

Uma adolescente é encontrada morta no rio Meno, nos arredores de Frankfurt. Sua identidade é um mistério. Aparentemente, ela é a terceira vítima de uma festinha regada a álcool que terminou tragicamente, mas a polícia descobre que a água nos pulmões da garota não é do rio, e que seu cadáver mutilado está ali há dias. Pia Kirchhoff e Oliver von Bodenstein, os detetives do best-seller Branca de Neve Tem que Morrer, agora trabalham para descobrir quem aprisionou, estuprou e brutalizou a jovem. Enquanto isso, mais crimes acontecem: a apresentadora de um programa de TV sensacionalista é espancada, estuprada e trancada no porta-malas de seu próprio carro e uma psiquiatra sofre uma morte terrível. A ligação entre os crimes é uma rede de violência e corrupção que atinge a elite da sociedade e o próprio departamento de Pia. Mas talvez seja tarde demais para ela e Oliver descobrirem quem é o lobo mau.

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As minhas impressões: o livro tem muitos personagens, então quem tem dificuldade com narrativas desse tipo (A Song of Ice and Fire mandou lembranças) pode estranhar um pouco. Entretanto, todas as tramas se justificam e fazem sentido no final – e o interessante é que a autora consegue abordar as complexidades e dramas de cada um dos personagens, sem cair em um terreno clichê. Em alguns momentos, a trama policial chega a ceder espaço para os conflitos familiares e pessoais, e confesso que isso acabou me fazendo pegar o ritmo do livro só do meio para o final.

Em função da complexidade de atores, os primeiros capítulos são um pouco difíceis de acompanhar, uma vez que estamos nos habituando aos diferentes nomes pipocando por aqui e ali. Os leitores mais acostumados a histórias de amor como pano de fundo podem estranhar a narrativa mais seca – em compensação quem gosta de uma história mais policial e crua, vai gostar.

Destaques: personagens femininas bem construídas e ativas, como a detetive Kirchoff e a jornalista duvidosa Hanna Herzmann, que apesar do perfil carniceira/sensacionalista, prova-se uma mulher de coragem. Outra trama bem interessante é a de Emma, uma mulher que volta à Alemanha com o marido para ter o segundo filho, e vai morar com os sogros. Tudo parece perfeito, até que ela começa a desconfiar do comportamento arredio e histérico da filha Louisa, uma menininha até então completamente normal.

O lobo mau é no-jen-to, e as piores passagens do livro são narradas no passado, nas memórias de uma criança traumatizada. Segurem o estômago. Suspeitos acabam se mostrando inocentes e pessoas normais revelam suas piores facetas. E não esperem por um final docinho, porque a história segue uma linha super realista.

Alguém aí já leu? Adoraria ouvir as opiniões de vocês nos comentários. 🙂

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Resenha do livro Objetos Cortantes

Estive um pouco ausente nos últimos dias, e prometi que assim que voltasse faria uma resenha do livro que eu terminei de ler. Promessa é dívida, então aí vai. Sem spoilers. podem ficar tranquilos.

Objetos Cortantes é o livro de estreia de Gillian Flyn, autora do best-seller Garota Exemplar, que chegou aos cinemas em 2014 com Ben Affleck e Rosamund Pike na pele dos personagens principais. O título faz jus ao que se espera de um primeiro livro – a trama é interessante, apesar de encontrarmos alguns furos na narrativa. Demorei três dias para ler, mas foi porque estava sem tempo. Vamos aos fatos:

Apenas mais uma família disfuncional

A heroína (se é que podemos chamá-la assim) da história é Camille Preaker, uma jornalista de 20 e tantos anos que vive em Chicago e trabalha em um jornal de pouca expressão. Ela mesma é uma profissional medíocre, apesar de ter um bom potencial. É pensando nisso que seu editor a comissiona para cobrir uma série de assassinatos bizarros em Wind Gap, Missouri, sua cidade natal. Enquanto o chefe acredita que a ligação com o ambiente facilita o trabalho, Camille reluta bastante em aceitar a oportunidade por não se relacionar bem com a famílila.

O que só descobrimos depois de umas belas cinquenta páginas, é que a nossa protagonista é uma cutter – em bom português, alguém que pratica a auto-mutilação. Recém-saída de um hospital psiquiátrico, ela ainda está em recuperação, mas tem o corpo inteiro coberto por cicatrizes. Ao contrário da maioria dos casos, ela não faz riscos aleatórios, mas fura a pele para escrever palavras.  Antes mesmo dessa revelação, percebemos que ela tem o hábito de relacionar os sentimentos a palavras que pulsam em seu corpo. Sensível, mas extremamente problemática.

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O mistério? Duas menininhas mal comportadas foram assassinadas brutalmente, e tiveram todos os seus dentes arrancados. Sem registros de violência sexual, o crime põe a cidade pequena em polvorosa, e é durante a investigação de Camille que vamos desvendando os seus segredos mais obscuros. O que parecia um típico vilarejo de interior mostra suas verdadeiras cores conforme vamos conhecendo a natureza dos seus habitantes: pessoas frias, más, cujo único passatempo é falar mal dos outros e construir a própria reputação com base na humilhação alheia.

Não existe absolutamente nenhum personagem solar na história. Todos são problemáticos e com vários traços de caráter perturbadores. A história é pesada e em vários momentos da leitura eu fiquei com uma sensação ruim, uma angústia muito forte. Não pela violência ou pela sexualidade precoce (as menininhas de 13 anos do livro fazem coisas que deixariam muita mulher safada de cabelo em pé), mas pela constante tensão psicológica. Você fica com pena, com raiva, assustado, mas ao mesmo tempo entende de onde esses comportamentos se originam, e é tentado a justificar as atitudes mais odiosas da história. Entre as piores, estão as praticadas pela mãe de Camille, Adora, e a sua meia-irmã, Amma (que é basicamente uma mistura da Sandy com a Noiva do Chucky).

Eu gostei bastante da construção dos personagens e da narrativa, mas me decepcionei um pouco com o final. O livro quebra o ritmo muito bruscamente para resolver o mistério nos dois capítulos finais, apelando para uma reviravolta que parece meio apressada. De qualquer forma, não foi nada que invalide a leitura.

O Veredito: Objetos Cortantes é bem mais pesado do que Garota Exemplar. O ritmo é menos acelerado, mas ainda assim a tensão psicológica e a loucura trazem um tom bem amargo para a história. Recomendo o livro, mas com algumas ressalvas para pessoas sensíveis demais. A frase mais marcante? Uma criança criada com veneno considera dor um consolo.

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